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ARTES POETA

Thiago de Mello, um dos mais conhecidos nomes da literatura brasileira, se despediu ontem "para permanecer"

O poeta amazonense morreu aos 95 anos, de causa ainda divulgada

15/01/2022 15h56 Atualizada há 4 meses
Por: Marcos Lima Mochila Fonte: Redação da Revista Total
Thiago de Mello na Praça Dom Pedro, no centro histórico de Manaus (Foto:Prefeitura de Manaus)
Thiago de Mello na Praça Dom Pedro, no centro histórico de Manaus (Foto:Prefeitura de Manaus)

 

“Como quem reparte pão, como quem reparte estrelas, como quem reparte flores, eu reparto meu canto de amor. Com uma estrofe apenas, eu me despeço - para permanecer com vocês. Me despeço para permanecer”, discursou o poeta, escritor, jornalista e tradutor Thiago de Mello, durante um evento na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, em comemoração aos seus então 90 anos. Nesta sexta-feira (14), aos 95, morreu em Manaus (AM) o gigante da literatura brasileira. Mas permanece.

Em 1981, na casa do poeta, compositor e sambista Paulo George, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, em uma pelada que era nosso ponto de encontro de todas as tardes de sábado, eu tive a honra de ser apresentado ao também poeta, músico, cantor e compositor Manduka, filho do poeta Thiago de Mello.

Paulinho (Paulo George, compositor campeão do samba-enredo da União da Ilha do Governador  de 2014) foi quem nos apresentou, por saber da minha admiração pelo seu pai.

Três anos antes, havia sido lançada por Fagner em 1978, no LP Eu Canto, a música Quem Me Levará Sou Eu, que embora seja bastante identificada com o cantor e compositor cearense, que a escolheu para dar nome à sua biografia, lançada em 2019, vale-se ressaltar, porém, que a música não é de sua autoria. Seus compositores foram Dominguinhos (melodia) e Manduka (letra). Dominguinhos, no entanto, só a gravou em 1980, quando a música já tinha feito sucesso com Fagner.

Manduka já era, portanto, bastante badalado. Por esta e por outras composições e shows que vinha realizando no Sul e Sudeste do país, sobretudo nos circuitos universitários.

Por isso, minha alegria foi dupla.

Quando lancei meu 2º livro, em 1986, a 1ª edição de Ano Novo de São João, inclui esta crônica que hoje, saudosamente, relembro:

POETA MAIOR

 Não nego minha admiração por Vinícius de Moraes, mas também a nutro por qualquer outro poeta, até esses poetas de rua, que são os mais puros, porque o que eu amo mesmo é a poesia. Mas, poeta maiúsculo, para mim, é, sempre foi e será, Thiago de Mello.

Essa admiração começou no primeiro livro dele que eu li: “Faz escuro, mas eu canto: porque a manhã vai chegar”, tão logo foi lançado, em 1966.

Sua poesia, com o jeito diferente de expressar-se, foi o que me incentivou, pela primeira vez, a continuar escrevendo poesias, o que eu fazia desde os 11 anos, porque eu estava descobrindo, a partir de seus poemas, um novo modo de pensar o mundo, o amor, a liberdade. “Faz escuro, mas eu canto, porque a manhã vai chegar”. Precisava de um motivo maior para começar?

Até 1978, quando fui morar no Rio de Janeiro pela segunda vez, já havia lido todos os seus livros - que ainda guardo comigo, alguns autografados -, e conhecia profundamente tudo que dizia respeito a esse poeta maior.  E, justamente naquele ano, tendo fixado residência na Ilha do Governador, conheci vários poetas, músicos, compositores de todas as tendências. Na casa de Paulo George, a gente sempre encontrava essa turma: Carlos Papel, Marcos Paiva, João Bosco e tantos outros. Nas tardes de sábado, a programação era sempre a mesma: participávamos de uma pelada com ares de campeonato mundial, onde não faltavam as comuns reclamações de quem perdia. Ao final, regadas a biritas e petiscos, promovíamos discussões sobre artes em geral, que se prolongavam até altas horas da madrugada.

Em uma dessas reuniões, conheci Manduka(*), o filho de Thiago de Mello. Ele havia acabado de compor, em parceria com Dominguinhos, a música “Quem me levará sou eu”, que fazia sucesso nas paradas naqueles tempos, na voz de Fagner.

Não precisa nem contar que foi a glória conhecer o filho do meu ídolo e conviver com ele tão intimamente. Sempre numa folga das peladas e dos nossos debates, sentava com Manduka para falar do poeta. E ele me prometeu que, quando houvesse uma oportunidade, me apresentaria ao pai.

Essa oportunidade surgiu no ano seguinte, quando de uma apresentação de Thiago de Mello em um recital de poesia na Cidade Maravilhosa. Manduka convidou-me, e lá estava eu, na primeira fila do teatro, emocionado, embevecido, estático, durante toda a apresentação. Tinha levado alguns dos meus poemas e, ao final da apresentação, quando fui com Manduka ao camarim para ser apresentado ao poeta, abri minha mochila (nessa época, ainda era um utensílio, nada tinha a ver com meu codinome hoje) e tive a ousadia de mostrá-los, embora vacilante, ao meu ídolo, já esperando que ele não desse a mínima atenção. Engano meu. Pacientemente, ele leu todos ali mesmo, com uma expressão de admiração que me deixou surpreso. Após terminar, pegou de um papel e de uma caneta e escreveu umas palavras. Dobrou o papel, entregou-me e pediu que eu o guardasse e sempre desse uma olhadinha antes de escrever qualquer coisa.

– Não o leia agora - disse.

Guardei o papel no bolso, ávido por lê-lo, mas respeitando o que ele pedira. Depois do espetáculo, para completar, ainda fui convidado para tomar umas cervejas num bar em Botafogo, onde ficamos até quase amanhecer. Eu me sentia nas nuvens, não acreditando que estava ali, ao lado de uma figura que havia me fascinado desde a infância.

Ao me despedir, recebi um abraço caloroso do poeta, que me afagou a cabeça com um jeito tão terno que me encheu de lágrimas os olhos.

Nem bem me afastei do grupo, rapidamente abri o papel, que depois se perdeu entre tantas outras coisas simples, mas de muita importância, nas minhas andanças e mudanças. Estava escrito: “Escreve pro povo, Marcos. É necessário que nós, poetas, façamos das nossas palavras um bálsamo para as dores do mundo. Você chega lá. Parabéns!”

Já se passaram mais de 40 anos. Aquela noite continua viva dentro de mim, como se tivesse acontecido na noite passada.

Após aquele encontro, passei a dar mais valor ainda às palavras contidas em sua Madrugada Camponesa: “Não vale mais a canção / feita de medo e arremedo / para enganar solidão. / Agora vale a verdade / Cantada simples e sempre. / Agora vale a alegria / Que se constrói dia a dia / Feita de canto e de pão.” 

(*) Manduka morreu no Rio de Janeiro no dia 17 de outubro de 2004, vítima de problemas cardiovasculares.

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