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ARTIGO

Por Alfredo Bertini (*)

Marcos Lima
Por: Marcos Lima Fonte: Redação Portal Difusão Total
29/08/2020 às 20h41
ARTIGO

 

CORRUPÇÃO PROGRESSIVA

 

Parte 1 

O antropólogo Luís da Câmara Cascudo foi o real autor de uma frase emblemática: "o melhor do Brasil é o brasileiro". Não resta dúvida que essa figura do compatriota é diferenciada, porque a força tão particular dos nossos valores culturais dá mesmo o tom desa expressão. Não tenho dúvidas de que Cascudo foi muito feliz nesse conceito. 

Porém, infelizmente, ao se olhar a sociedade brasileira por outras lentes, o que se nota é a evolução gradual de uma decadência comportamental de muitos cidadãos. Uma espécie de "incivilidade nacional" tomou conta do nosso "jeito de ser". Daquela "malandragem caricata", de uma "esperteza sem maldades", marchamos para comportamentos inaceitáveis. Graduamos um perfil de "malandro", que trouxe o traço cultural, em certas situações, para o nível da "bandidagem". Contexto suficiente para gerar um "manual de maus costumes", que aqui batizei de "Guia Prático de Corrupção Progressiva". Abaixo, os passos básicos. 

Passo 1: A "desconstrução" da cultura do "jeitinho brasileiro"

Aqui, começa a perda da "igenuidade esperta" comum ao jeito malandro.

Passo 2: A soberba do ser "mais igual" que outros

Neste estágio, o brasileiro exerce, quando pode, sua supremacia do tipo "sou mais alguém" ou "sabe com quem está falando?". Uma situação ilegítima. 

Passo 3: A proeminência do "levar vantagem" em tudo.

Neste outro estágio, a esperteza perde sua ingenuidade malandra e se afirma, de fato, como supremacista. E as vantagens conquistadas ganham contornos ilegais.

Passo 4: A institucionalização da "propina generosa".

Chega-se ao ápice da malandragem. Os contornos passam a ser criminosos. 

Bem, para dar validade prática ao Guia, na Parte 2, do texto, concluo com alguns exemplos recentes.

 

 

Parte 2

 

Na parte 1 do texto fiz uma demonstração do que pode ser o processo evolutivo da "incivilidade cidadã" do brasileiro. Da esperteza do malandro caricato aos "propineiros de plantão" os desvios de conduta se tornaram práxis de uma rotina que macula nossa sociedade. 

Para exemplificar, duas informações recentes que demonstram esse trágico "espírito nacional". 

1) Ministério Público aponta fraudes de R$ 2,5 bilhões no Bolsa Família

Um levantamento feito pelo MPF apontou suspeitas de fraudes nos pagamentos do Bolsa Família, que podem chegar a R$ 2,5 bilhões e atingir 1,4 milhão de beneficiários. 

2) CGU estima perda de até R$ 4 bilhões por fraudes no auxílio emergencial

 Se considerarmos que foram pagas as três parcelas de R$ 600, estamos falando de mais de 2 milhões de beneficiários.

A esses brasileiros se somam muitos que não praticaram fraudes, mas agem fora do padrão da civilidade e comprometem o seu papel de cidadão. Ativa ou passivamente, desde os simples e habituais praticantes do "fura fila", passando pelos transgressores de conduta ética e moral (quem compra e vende falsificados, faz gambiarras gerais, sonega, viola direitos autorais etc) e chegando aos "propineiros convencionais" (que exercitam o suborno consentido com guardas e fiscais, por exemplo), assiste-se de modo tolerante e conivente à escalada d. Todas essas são ações que dão sustentáculo ao passo final que ruma até à porta da criminalidade. Deriva desse ponto etapas mais sofisticadas de corrupção, que vão, por exemplo, desde os vícios das licitações públicas até as teias bem elaboradas de lavagem de dinheiro. 

Se parte da sociedade hoje carrega consigo esse carimbo da "má fé" com que cara de pau se cobra dos outros? Os que agem com mal-feitos em funções de poder não são um extrato amostral dessa pandemia ética e moral? Não importa status social, função profissional, montante financeiro ou situações que possam ser distintas. A falta de conduta nessas atitudes éticas, morais e de respeito civil tem peso e igualdade para qualquer um. 

Não há jeito. Será preciso investir numa nova geração, capaz de resgatar o lado bom de ser brasileiro.

 

Fundador do Cine PE, em 1997, junto à sua esposa, a produtora Sandra Bertini, Alfredo Bertini é doutor em Economia pela Universidade de São Paulo (USP). Ele já atuou como secretário adjunto de Pernambuco, entre 1994 e 1995, e secretário de Turismo e Esportes do Recife, de 2004 a 2005.

Bertini também já presidiu o Fórum Nacional dos Organizadores de Festivais Audiovisuais Brasileiros e é autor de livros como Economia da Cultura e Quando o Caso é de Cinema, a Paixão é um Festival.

 

 

 

 

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