
A pandemia e os déficits cognitivos no contexto escolar
Por: Profª. Allana Fróes (*)
O cérebro, sem dúvida, é a máquina mais incrível que já vimos na vida. E o que este faz de melhor é aprender. Ele responde aos estímulos sensoriais, processa as informações, retém tudo na memória de longa duração e elabora estratégias rápidas de interação com o mundo.
A aprendizagem é um processo de mudança de conhecimento, de comportamento, que se obtém por meio das vivências construídas por fatores emocionais, neurológicos e relacionais. A base do processo de aprendizagem é a atenção. É ela que seleciona o que é importante para consolidar na memória - o que chama nossa atenção é o que fica no cérebro.
Por isso, quando falamos de aprendizagem escolar, os professores precisam sempre rever metodologias e tornar a aula prazerosa, que chame a atenção do aluno e que desperte nele a vontade de aprender. O professor necessita emocionar e estimular para que o conteúdo seja consolidado na memória e não ser descartado. Quando os estudantes estão em sala de aula, o docente percebe quando não está sendo compreendido ou quando o aluno está disperso e de maneira rápida e criativa tenta trazer o aluno de volta ao conteúdo.
O cenário atual da pandemia forçou professores a pensar e repensar as metodologias utilizadas, para que os alunos não sejam sobrecarregados e desmotivados, para que, de certa forma, o conteúdo seja consolidado e não perdido. É necessário chamar a atenção dos alunos com metodologias ativas e criativas. Cumpre examinar, nesse passo, a urgência de um olhar mais atento aos alunos. Cabe aos educadores compreenderem que “passar” conteúdos e deixar os estudantes “ocupados” com exercícios e mais exercícios, videoaulas, aulas on-line etc, para “preencher” a lacuna da impossibilidade de um ensino presencial, é, antes de mais nada, instaurar uma “pandemia” de ansiedade cognitiva.
Estudos em neurociência afirmam que os processos cognitivos e emocionais estão entrelaçados e que bloqueios emocionais podem prejudicar a aprendizagem. A falta de rotina social, as distrações do ambiente, a compreensão dos conteúdos, a falta de convívio dos amigos, tem desmotivado os estudantes de modo geral. Quem tem motivação de continuar aprendendo através de uma tela fria? Nesse aspecto, os estudantes têm apresentado déficits cognitivos como desatenção, pouca concentração, ansiedade, lentidão de raciocínio, falta de interesse, déficit de memória e procrastinação. Esses déficits interferem nos processos de atenção focalizada e deixam os alunos sob condição de estresse.
A pandemia do novo coronavírus está revolucionando a forma de ensinar. O estresse crônico está fortemente relacionado a vários distúrbios cerebrais, incluindo depressão, ansiedade, e distúrbios de aprendizagem. É preciso, portanto, conhecer quais os efeitos do estresse na cognição e treinar a mente para diminuir a distração, procrastinação e apatia.
Neste contexto, faz-se necessário que se tenha intervenção para reabilitação cognitiva. A neurociência favorece essa reabilitação através de treinamentos cerebrais para promover a plasticidade neural (reorganização das redes neuronais para melhor desempenho) e poder restabelecer a atenção, concentração, foco, agilidade no raciocínio, leitura, compreensão e outros aspectos afetados pela pandemia no cenário da aprendizagem.
É preciso agir com urgência para que esse estado de estresse não configure um transtorno de aprendizagem que se perdure por muito tempo, trazendo dificuldades ainda maiores nos processos de aprendizagem.

(*) Profª. Dra Allana Frós
Neurocientista e educadora
CFEP 19.001.495
SBNeC 2321123