
O DIA EM QUE O GALO NÃO CANTOU
Azul, Branco, Amarelo, Vermelho e Verde
Porque hoje é sábado, deveria ser um sábado como outro qualquer.
E isto seria normal? Seria.
Seria, porém não foi.
E não o foi porque este sábado, há quase meio século, pertence ao Galo.
Ele, que foi criado por Enéas Freire no final de 1977, com o nome de Clube de Máscara Galo da Madrugado, realizou o seu 1º desfile no dia 23 de janeiro de 1978, pelas ruas do bairro de Santo Antônio e São José, no Recife, reunindo uma “multidão” de 75 foliões.
Quem diria que, 16 anos após, o Galo, que tinha debutado no ano anterior, em 1994 teve o reconhecimento internacional: o 'Guiness Book' consagrou a agremiação como “o maior bloco de carnaval do planeta”, quando 1,5 milhão de foliões desfilaram pelas ruas do centro da cidade.
Este número foi aumentando e, em 2014, o bloco teve, segundo estimativas, 2,4 milhões de pessoas acompanhando o desfile e dançando ao som dos trios elétricos. Em 2015, o Galo teve 2,5 milhões de pessoas. Nos anos 2016, 2017 e 2018, o Galo repetiu o recorde de 2015, com 2,5 milhões de foliões nas ruas. Cifra que o bloco continua a aumentar, ano após ano, exceto neste ano de 2021.
O Galo, que se apodera, imponente e majestoso, da Ponte Duarte Coelho, na junção das avenidas Conde da Boa Vista com a Guararapes, com suas cores tradicionais Azul, Branco, Amarelo, Vermelho e Verde, passou a ser o símbolo a chamar a atenção da cidade que no dia do seu desfile, no Sábado de Zé Pereira, é o início oficial do Carnaval recifense. O dia em que Alceu Valença chama a todos, entoando o Hino do Galo, composto por José Mário Chaves: “Ei, pessoal! Vem moçada! / Carnaval começa no Galo da Madrugada”.
Em 2009, o bloco foi consagrado como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de Pernambuco, por meio de lei aprovada na Assembleia Legislativa de Pernambuco e sancionada pelo Governador do Estado. Uma data tão importante, mas que não foi presenciada pelo seu criador, o carnavalesco Enéas Freire, que havia morrido um ano antes, no dia 09 de junho de 2008, aos 86 anos.
E foi passando hoje, pela Ponte Duarte Coelho, assim tão vazia, tão sem vida, tão sem graça, num sábado de Zé Pereira, que eu lembrei do que sempre falo pros meus amigos, sobre o artista. Refiro-me, obviamente, ao artista verdadeiro, o poeta, o criador de pérolas musicais: eles têm algo de divino e isso se pode observar nas suas criações.
Vejam que, assim como George Orwell, que lançou o livro 1984, no dia 8 de junho de 1949, quando ainda nem se sonhava com a Internet, (que só viria a ser criada 20 anos depois, em 1969, nos Estados Unidos), em que a humanidade é supervisionada e espionada 24 horas pelo Big Brother, o Grande Irmão, (cujo Partido "busca o poder por seu próprio bem, sem nenhum interesse no bem dos outros, interessado unicamente no poder”); e como Raul Seixas que, profeticamente, compôs, em parceria com Claudio Roberto, em 1977, O dia em que a Terra parou, um pernambucano que morou na Rua da Aurora, que atravessa o acesso à Ponte Duarte Coelho e se manda lá para os Coelhos, também preconizou, em 1967, o dia que hoje tivemos. Esse pernambucano é o Edu Lobo, que naquele ano compôs e o MPB4 gravou, No Cordão da Saideira: Hoje não tem dança / Não tem mais menina de trança / Nem cheiro de lança no ar / Hoje não tem frevo / Tem gente que passa com medo / E na praça ninguém pra cantar...
E assim o foi: hoje não teve frevo pelas ruas do Recife, nem bandas e blocos no Marco Zero, nem troças subindo e descendo as ladeiras de Olinda, nem tampouco o Carnaval começou com o Galo da Madrugada.
Veja as cenas mostradas pelo G1 PERNAMBUCO para comparação de 2020 e 2021 no link a seguir (Copie e cole para visualizar): https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2021/02/12/carnaval-2020-x-2021-veja-video-e-fotos-de-ponte-no-recife-com-e-sem-o-galo-gigante.ghtml
Hoje, diante da cena da Ponte Duarte Coelho tão vazia, só me vieram lágrimas e lembranças, e mais ecos do Cordão da Saideira, de Edu Lobo: Me lembro tanto / E é tão grande a saudade / Que até parece verdade / Que o tempo inda pode voltar...
Não, não parece verdade. É verdade verdadeira, pois, como tudo passa, isso também vai passar, o tempo vai voltar e Alceu vai novamente chamar: “Ei, pessoal! Vem moçada! / Carnaval começa no Galo da Madrugada”.
E vai ter dança, vai ter menina de trança e talvez não tenha mais, porque há muito já não existe cheiro de lança no ar. Mas vai ter gente passando sem medo e a praça – e as ruas do Recife e Olinda – estarão novamente cheias de gente a cantar!