O ser humano tende a sempre tentar colocar a culpa em outras pessoas ou fatores externos para justificar seus comportamentos, posturas ou resultados que não foram considerados satisfatórios.
A dificuldade para assumir os próprios erros existe porque encontrar culpados se tornou um hábito do ser humano: se está sofrendo é porque alguém está causando este sofrimento, se algo não deu certo é porque alguém conspirou contra você, e assim por diante.
O futebol pernambucano, há alguns anos vem sofrendo uma queda de qualidade e, neste ano, em meio a recentes temporadas de fracassos, a situação ruim se exacerbou.
O Náutico foi eliminado na Série C, o Santa Cruz ficou sem calendário nacional para 2024, o Retrô não conseguiu, mais uma vez - apesar de fazer tudo certo -, subir para a série C e o Sport, que teve uma primeira fase muito boa na Série B, vem caindo nos últimos 5 jogos a ponto de colocar em risco sua ascensão para a Série A no próximo ano.
Então, se tudo isto está acontecendo, os grandes ‘entendidos’ do futebol e dos milagres administrativos e financeiros de imediato já encontraram o grande culpado – ou os grandes: a Federação Pernambucana de Futebol e, por conseguinte, o seu presidente, Evandro Carvalho.
O presidente da FPF deu uma entrevista ao repórter Juan Torres, do ge, esta semana, e quem a leu deu pra entender o “fenômeno” da queda de qualidade do futebol pernambucano. Está tudo ali, muito claro e explicado tim tim por tim tim.
Elencamos alguns trechos para mostrar que, mesmo estando o futebol pernambucano nessa penúria, se “o culpado” não viesse tomando providências - e não apenas Neste ano, mas há vários anos, uma vez que assumiu a presidência em 2011, com o falecimento de Carlos Alberto Oliveira -, a situação estaria bem pior.
Vejamos algumas colocações de Evandro:
O que vale é o futebol. Não importa o resto
"Tirando o Retrô, que está voando, pegou certificado (de clube formador)... O Sport também. O Retrô foi o time que mais negociou jogadores no ano de 2022, mais que o Flamengo. Tirando o Flamengo de Arcoverde, que virou SAF.... É porque o que aparece é o futebol. Diógenes (Braga, presidente do Náutico)... Estou doente, porque a administração que Diógenes fez, de gestão... Diógenes vai ficar até o fim do ano sem jogar com tudo em dia. E por conta do futebol, o cara foi detonado. E a administração foi excelente. Mas o que vale no final do dia é o futebol".
O Santa Cruz
"O Santa Cruz está com tudo ruim: gestão, administração, estrutura, patrimônio e futebol. Cada clube tem uma situação diferente. O Santa Cruz é um fato crônico que se desenvolveu. se exacerbou, criou um gigantismo que detonou nessa situação.
Há 30 anos (o Santa Cruz) entendeu que precisava ganhar. E em nenhum momento se organizou administrativamente. Em nenhum momento se estruturou em termos de gestão. O que os presidentes, ao longo dessas décadas, tinham em foco era ganhar jogos. E evidentemente que o Santa Cruz tinha uma capacidade de endividamento grande, como tinha Náutico e Sport. Só que eles não consideram que essa capacidade chegaria a um ponto que eclodiria. Também o fato de Pernambuco ter sido o primeiro estado do Brasil - e eu participei disso - de ter construído aquela solução de centralização na Justiça. Que não permitia que os clubes tivessem bloqueios (de receitas, por conta de dívidas trabalhistas), que permitisse pagar apenas 10%. Como pagavam 10%, ao invés de 100%, no caso o Santa Cruz, de se organizar pra pagar os 90% ao longo de 10, 20, 30 anos, eles ao contrário gastaram os 90% e incrementaram o débito com mais 90%. O débito passou pra 180%. E isso foi se acumulando e explodiu com Alírio (Moraes, presidente coral de 2015 a 2017), Tininho (Constantino Júnior, de 2018 a 2020) e principalmente com Joaquim (Bezerra, de 2021 a março de 2022) e Antônio (Luiz Neto, atual presidente).
Eu devo ter investido no Santa Cruz... Se não me engano, a Recuperação Judicial dele fala em oito ou nove milhões. Eu deveria ter conseguido 18 ou 19. Foi insuficiente para o Santa Cruz ter uma condição melhor. Apesar de que eu acho que o problema do Santa Cruz é muito mais complexo, pois o passivo é de R$ 200 milhões. E não foi produzido nem por Alírio, Constantino nem Antônio. Isso é remanescente de dez gestões passadas. A situação do Santa Cruz é realmente difícil e acredito que a única viabilidade é de fato ter um parceiro econômico, seja no modelo de SAF ou gestão compartilhada".
O Náutico
"O caso do Náutico, não. É como o Retrô, é meramente ocasional. O time, apesar de ter grandes jogadores, tanto que já foram contratados, Ponte Preta levou dois ou três, ou seja, tinha grandes valores, mas não deu a liga necessária, teve alguns resultados infelizes".
Cenário após 12 anos de gestão à frente da FPF
"É fácil entender. Pernambuco tinha uma receita de R$ 12 a 14 milhões provenientes de programas governamentais, como hoje o Pará tem R$ 12 milhões, Amazonas... A Paraíba, no último Diário Oficial que vi era R$ 9,8 milhões. Enfim, esse aporte financeiro do poder público (Programa Todos com a Nota) era um incremento importantíssimo para o fortalecimento da capacidade de contratação dos clubes. Gerava uma competitividade maior.
Veja que só quem tinha esse programa era Pernambuco. Os outros estados nunca tinham despertado pra esse modelo pedagógico e arrecadatório do poder público via tributação. Chegamos a ter ano que só nós tínhamos dois clubes na Série A. Bahia e Ceará não tinham nenhum clube. Quando outros clubes despertaram e viram que essa equação de incremento financeiro gerava capacidade e densidade de contratação, aumento de competitividade, outros estados passaram a copiar nosso programa. E nós mesmos cedemos, que era normal, não tinha como esconder. Copiaram praticamente na íntegra, com pouquíssimas variações, e com o advento do Governo que saiu, o Governo cancelou o programa.
Deixamos de arrecadar dez, doze, catorze milhões e os outros estados passaram a arrecadar. Isso criou um desequilíbrio da capacidade dos nossos clubes, muito especialmente do Santa Cruz, o que er amais dependente. Era o maior quantitativo de benefício dessa área, pois o Santa Cruz colocava, se não me engano, 10 mil ingressos dentro do programa. O Náutico colocava quatro mil e o Sport, seis mil. Isso era um aporte financeiro gigantesco".
Quais os planos para reverter esta situação?
"Continuar colocando dinheiro nos clubes. Agora, nós vamos fazer um modelo... Nós não vamos mais atender aos clubes. Eles pedem pra jogar as competições de base por dois, três meses. Eu agora vou fazer um campeonato de oito meses. Quem não quiser jogar, sai. Vai durar oito meses. Os clubes têm que incrementar, aumentar a revelação de atletas. E na minha visão só revela atletas treinando e jogando. Por mais que nós gostemos, e eu gosto, de atender aos clubes, neste próximo ano não vamos atender. Vamos fixar as competições de base com oito meses de duração. Nos não vamos poder mais fazer competições de dois, três meses como eles pedem, porque no final das contas, o que eu ouço é... Engraçado que os treinadores, eles mesmos, vão pra rádio e dizem: 'Federação não faz competição, os clubes não jogam, não podem revelar jogador'. Eu proponho oito meses do ano e eles só querem jogar dois... Quem não quiser jogar, não joga, mas não vai poder dizer que foi por conta da Federação não ter lançado no calendário competições. Então, já determinei que Sub-15, Sub-17, Sub isso, Sub aquilo vai durar oito meses. Se vai ter clube pra jogar, tudo bem. Se só tiver Retrô e Sport pra jogar, vai jogar Retrô e Sport durante oito meses. Mas quem não quiser jogar, não joga".
Ampliação da Série D
Mesmo Evandro tendo ido recentemente a São Paulo e ao Rio de Janeiro para tentar a ampliação do número de participantes da Série D, o que fará novamente esta semana, o presidente da CBF, por meio da assessoria de imprensa, passou para o ge que no momento é impensável ter esse aumento...
Evandro ressalta: "É impossível, por isso que estou tentando. Se fosse possível eu não tentaria, ele mesmo faria. Só gosto de buscar as coisas impossíveis".
E o presidente diz que é impossível porque tem que emitir aprovação de todos os clubes. "A CBF é igual à Federação, não vota nem tem poder de veto. Então, por exemplo, pensei em criar a Série E. Consultei rapidamente algumas Federações e todas foram contra. Aí pensei fundir Série C e Série D, que acho uma boa ideia, pois diminui a distância da base da pirâmide para a Série A. Acho distante você ter Série D, subir para a Série C, Série B pra poder chegar na A. Acho mais interessante ter só uma tríade. Mas, na hora que lancei a ideia, oito clubes grandes, de cara, disseram "de jeito nenhum". O que resta? A única forma seria ampliar a base da pirâmide na D. É possível? Não. É viável? Não. Ou seja, em tese é impossível, por isso estou tentando fazer. E para isso tenho que convencer 64 clubes mais 26 federações".
Resta a esperança na ampliação
Como 'A esperança é a última que morre', Evandro Carvalho declarou que irá realizar nesta terça-feira (12), uma nova visita à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), com o intuito de convencer o presidente Ednaldo Rodrigues para que haja uma ampliação do número de clubes na disputa da Série D, de mostrar que o inchaço da 4ª divisão será benéfico para a manutenção de clubes tradicionais do país.
Caso a mudança não seja aceita, o Retrô e o Petrolina serão os representantes de Pernambuco e o Tricolor do Arruda só herdaria a vaga em caso de desistência de um dos clubes.
“Estamos buscando uma solução, não apenas eu, há outros presidentes, na busca de encontrarmos a melhor alternativa para nossos filiados. Isso é nossa obrigação, nosso dever buscar condições de melhor desenvolvimento e de calendário para os nossos clubes. Então, vamos ver se nós teremos algum êxito nessa próxima semana. Na terça-feira eu já viajo e deverei estar toda semana nesse trabalho de tentativa de criar uma solução que possa ajudar mais de uma dezena de clubes que estão momentaneamente em dificuldade”, promete Evandro Carvalho.
Administração do “culpado” à frente da FPF
Em 2015, entrevistamos o presidente Evandro Carvalho para uma edição especial da revista ALMANAQUE PERNAMBUCANO, que lançamos em homenagem ao Centenário da FPF.
Segue a matéria original:
Entrevista com Evandro Carvalho: o Presidente do Centenário
Evandro Carvalho integra a FPF desde 1985, onde chegou na gestão de Fred Oliveira, irmão de Carlos Alberto, como vice-presidente jurídico, tendo exercido a função durante 16 anos. Quando Carlos Alberto Oliveira assumiu, convidou-o para ser seu vice.
Em 2011, com o falecimento de Carlos Alberto Oliveira, Evandro Carvalho assumiu a presidência e implantou uma nova forma de administrar a entidade, sempre fazendo questão de afirmar que não tem perfil centralizador.
"O processo moderno de administrar pede que poderes sejam delegados e que haja cobrança de resultados. É desta forma que sei trabalhar”, explicou Evandro em entrevista que nos deu para uma edição especial da Revista Almanaque Pernambucano, que lançamos em homenagem ao Centenário da FPF, em ressalta Evandro.
Apesar dessas diferentes formas de administrar, Evandro Carvalho faz questão de elogiar a sabedoria de Oliveira.
"Ele era um visionário e sabia escolher as pessoas que queria por perto. Ele me convidou para ser seu vice em virtude, principalmente, do meu perfil conciliador”.
Comprovando o seu prestígio junto à CBF, Evandro já chefiou a delegação da seleção brasileira diversas vezes.
Nos amistosos na China, contra a Zâmbia, e na Coreia do Sul, contra os donos da casa, em 2013, ele esteve à frente do grupo do Brasil.
Em junho de 2014, foi o Chanceler do Comitê Organizador Local (COL) para a sede do Recife na Copa do Mundo.
O presidente chefiou a delegação do Brasil na Ásia, no Superclássico das Américas, contra a Argentina, e no amistoso diante do Japão.
Almanaque Pernambucano (AP) - Quais as dificuldades enfrentadas e que modificações implantou no início de sua gestão, à frente da FPF?
Evandro Carvalho (EC) - A modernização da entidade e o aprimoramento dos campeonatos promovidos pela FPF, além da ascensão dos principais clubes pernambucanos no futebol nacional.
Quando assumi, não tínhamos nenhum clube na 1ª divisão nacional. Em 2011, Náutico e Sport estavam na Série B e o Santa Cruz na Série D. Hoje, temos o Santa Cruz e o Sport na Série A, e o Náutico muito próximo de uma ascensão.
Apostei na modernização da entidade e nas mudanças estratégicas para revelar jovens atletas para o futebol pernambucano e nacional com competições do Sub-15, Sub-17, Sub-20 e Sub-23.
Consegui, dentro de uma estrutura financeira muito rígida, possibilitar a uma juventude, a partir dos 13 anos, junto com a CUFA, a participação em inúmeras competições, ora dirigidas diretamente pela FPF, ora em convênio com a Prefeitura do Recife, como o Recife Bom de Bola. É, sem dúvida, um orgulho e um motivo de satisfação de todos nós.
Atualmente, temos um prédio mais moderno, em relação a outrora, com uma ampla biblioteca para os torcedores pernambucanos, jornalistas e amantes do futebol.
Fomos, nos últimos dois anos, o Estado que mais investiu na arbitragem, o que mais realizou cursos de qualificação e aperfeiçoamento e passamos a ser, agora, o Estado com a primeira Escola Oficial de Arbitragem para formação de novos árbitros.
AP - Como o senhor tem feito para continuar ajudando os clubes sem o Todos com a Nota?
EC - Estou estudando outras formas de viabilizar recursos para os clubes. Já entrei em contato com uma empresa que nos representa em São Paulo e estou conversando com outras empresas interessadas em patrocinar o campeonato estadual e os clubes. Estamos prestes a fechar com um grande patrocinador.
AP - A ALEPE aprovou o consumo de bebidas alcoólicas nos estádios. O senhor vê possibilidade de as empresas voltarem a investir em propaganda, como acontecia antes da proibição, há seis anos?
EC - O projeto do deputado Antônio Moraes foi aprovado pelos parlamentares, porém ainda vai para a sanção do Governador Paulo Câmara. Se sancionado, será de grande valia para o futebol pernambucano. A aprovação representa um fortalecimento das agremiações e possíveis novas receitas. Creio que as empresas voltarão a investir, sim, inclusive já estamos buscando patrocínios de cervejarias.Dentro da crise que estamos passando isso é um incremento importante nesse segmento.
AP - A FPF completou 100 anos sem as comemorações que se esperavam para uma data tão importante. A morte do ex-governador Eduardo Campos, grande parceiro da Federação durante as duas gestões, foi o motivo para que isso não acontecesse?
EC - No centenário da entidade resolvemos nos dedicar a ações sociais. Então, ao invés de gastar com festas optamos por fazer uma comemoração simples, com uma missa em uma capela e um coquetel na sede da entidade.
Os investimentos foram repassados para ações sociais, como doação de cadeiras de rodas, doação de padrões e bolas de futebol para comunidades carentes, entrega de cestas básicas.
Buscamos uma integração maior com as comunidades, entregamos bolsas, ajuda de custo, viabilizamos atendimento a grupos que trabalham com pessoas carentes, entre outras ações.
É claro que tenho um enorme respeito e admiração por todo o legado deixado por Eduardo Campos para o futebol pernambucano, inclusive, homenageei-o este ano na data em que ele completaria o seu 50º aniversário, no jogo de estreia do atacante Grafite, com o Arruda lotado.
Também colocamos um busto do ex-governador num local especial, na entrada da sede da FPF.
Essas foram algumas formas que encontramos de agradecer ao que ele fez pelo futebol estadual.
AP - Quais os projetos da FPF para o próximo ano?
O principal deles: Vamos também continuar investindo forte em nossos campeonatos de base para continuarmos revelando atletas para o futebol estadual.
AP - Que mensagem o sr. deixaria para o torcedor pernambucano?
EC - Gostaria de pedir ao nosso torcedor para que continue acreditando no futebol pernambucano e que ajude o seu clube se associando, torcendo e vibrando com as competições disputadas pelo seu time.
Passados 8 anos desta entrevista, o que nós também esperamos é que o torcedor continue acreditando, se associando aos seus clubes, torcendo e vibrando, pois este é o maior prêmio para atletas e dirigentes de futebol.
E por falar em dirigentes, assim como políticos, que aqueles que podem votar para a escolha do presidente de seu clube procure analisar e verificar se quem ele está escolhendo tem, realmente, capacidade para enfrentar e dar conta de um cargo tão complexo, se o escolhido tem, realmente, identidade com o clube e se ele não vai abandonar o barco no meio do aceano, à deriva.