CONTOS, CRÔNICAS & POESIAS LEMBRANÇAS
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Por: Inorbel Viegas (*)
07/02/2024 20h36 Atualizada há 3 anos
Por: Marcos Lima Fonte: Dos arquivos do Autor

 

A casa é ampla. Varanda enorme. Pomar no quintal. Vasto espaço na sala e na cozinha.

A biblioteca guarda o resultado de uma vida inteira de leitura e conhecimento. Tanto que parte dos livros, já sem espaço nela, subiu para o mesanino.

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Lá em cima o silêncio reina, longe da confusão cotidiana da casa. É lá que ele prefere passar as horas roubadas das obrigações. Solitude criativa, desejo inconfesso.

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Há uma prateleira de destilados e charutos disfarçada de cabine telefônica, bem ao estilo inglês.

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Há uma mesa ao centro, onde ficam espalhados manuscritos de crônicas inacabadas, livros abertos, envelopes de cartas, pesos para papel, lápis e canetas.

É dali que o pensamento criativo dele parte para preencher em definitivo o branco dos papéis.

Dias desses, livrou-se dos afazeres da casa e subiu, sem chamar atenção de ninguém, certo de passar várias horas em companhia de livros e escritas.

Mas a ideia não vingou. Não havia nem quinze minutos que estava lá em cima, concentrado em uma nova crônica, quando foi tomado por uma angústia avassaladora.

Pela janela aberta entrou um perfume de flores. Não de qualquer flor. Era perfume de despedida. Desses que se acentuam nos velórios e cemitérios.

Olhou para um lado e pra outro. Olhos arregalados. Sentiu um frio na espinha e os pelos e eriçados.

Quá nada, siô! Perfume de enterro é mau agouro. É prenúncio de notícia ruim. Pensou com seus botões. Eu é que não fico aqui sozinho.

Desceu a escada num zás! Desembarcando de vez daquele assombro perfumado.

Já no piso inferior da casa, a salvo dos seus fantasmas, tratou de ocupar a mente e as mãos com outros afazeres.

Danou-se a cortar cebolas para a salada do almoço. Enquanto planejava para o dia seguinte uma nova investida literária no mesanino. Que fantasma nenhum dura mais que um assombro.

Para o meu pai Inocêncio de Jesus Viégas, seus medos e suas paixões.

Em pleno voo, em 05/02/24

 

(*) Inorbel Maranhão Viegas

é cronista, poeta, jornalista e escritor.