ECONOMIA Economia
Expansão de cursos de Medicina muda mapa de formação
Faculdades mudam o mapa da formação médica e já fortalecem as redes locais de saúde durante o aprendizado dos alunos
30/09/2026 12h28
Por: Marcos Lima Fonte: Agência Dino

A expansão dos cursos de Medicina no Brasil tem mudado não apenas o número de médicos disponíveis, mas também o mapa da formação desses profissionais. Em Uberlândia, a Faculdade de Medicina de Uberlândia (FAMEU), integrante da UNIFATRA, é um exemplo desse movimento: estudantes que chegaram à etapa de internato já começaram a atuar em unidades públicas de saúde da cidade e também de Monte Carmelo, em Minas Gerais, e Catalão, em Goiás.

A experiência mostra que os efeitos da abertura de uma escola médica podem começar antes mesmo da formatura. Durante o internato, os estudantes passam a integrar a rotina dos serviços de saúde sob supervisão, ao mesmo tempo em que aprofundam a formação prática e entram em contato direto com as necessidades da população. Mas esse impacto na vida das pessoas começa ainda antes, com o estágio.

O movimento de interiorização da Medicina ocorre em um momento em que o Brasil discute como ampliar o acesso à formação médica sem comprometer a qualidade dos profissionais. A Demografia Médica 2025 mostra a dimensão da transformação ocorrida nas últimas duas décadas. O número de cursos de Medicina passou de 143, em 2004, para 448 em 2024. As vagas saíram de 13.820 para 48.491 no mesmo período. As instituições privadas respondem hoje pela maior parte da oferta de vagas, o que tornou sua participação primordial no acesso do brasileiro ao atendimento médico de qualidade no futuro.

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Gestores do ensino superior defendem que a expansão é necessária diante do envelhecimento da população e da necessidade de distribuir médicos por diferentes regiões do país. Para João Gonçalves, reitor da UNIFATRA, a experiência da FAMEU demonstra que a contribuição de uma faculdade de Medicina para a rede de saúde não precisa esperar a chegada dos primeiros formandos ao mercado. "Nós já impactamos a saúde pública agora. É atendimento de qualidade, com estudantes em aprendizado e acompanhados por profissionais já formados, entregando escuta importante, conexão com o paciente e apoio ao sistema público. É um impacto positivo imediato para a sociedade", afirma.

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Mais médicos para uma população que está envelhecendo

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Para José Rocha, reitor da Universidade Christus, em Fortaleza (CE), a discussão sobre a abertura de novos cursos precisa considerar uma transformação demográfica pela qual passa o país. O aumento da idade média da população brasileira amplia a necessidade de profissionais disponíveis para atender diferentes demandas de saúde. Nesse cenário, a expansão da formação médica representa, segundo ele, uma forma de preparar o país para uma necessidade que tende a crescer.

Reitor de uma instituição com nota máxima no ENAMED, o exame que avalia o ensino médico, José Rocha também é diretor da Associação Brasileira de Mantenedores do Ensino Superior e vice-presidente da Associação Brasileira de Faculdades Isoladas (ABRAFI). Para ele, as instituições privadas têm capacidade de reagir rapidamente às mudanças que ocorrem tanto na sociedade quanto na própria Medicina. A velocidade de incorporação de novas tecnologias, conhecimentos e equipamentos é apontada pelo reitor como uma das características desse processo.

Interiorização muda mapa das vagas

Outro efeito da expansão foi a descentralização da formação médica. Dados da Demografia Médica 2025 mostram que, em 2004, 51,2% das vagas de Medicina estavam concentradas nas capitais brasileiras. Em 2024, esse percentual caiu para 34,8%. Ao mesmo tempo, os municípios com menos de 300 mil habitantes passaram a concentrar 43,6% das vagas.

A FAMEU se insere nesse processo em Uberlândia, no interior mineiro. A cidade, que funciona como polo regional de saúde, recebe pacientes de diferentes municípios do Triângulo Mineiro e de outras regiões. O impacto da escola, porém, não se limita à formação dos estudantes. Com o início do internato, 50 alunos passaram a atuar em unidades públicas de Uberlândia, Monte Carmelo e Catalão. A etapa é realizada sob supervisão e representa uma fase importante da graduação, na qual o conhecimento adquirido em sala de aula passa a ser aplicado em situações reais de atendimento.

Para João Gonçalves, essa presença ajuda a estabelecer uma relação direta entre a formação universitária e as necessidades do sistema público de saúde. "Nós já impactamos a saúde pública agora. É atendimento de qualidade, com estudantes em aprendizado, mas entregando escuta, conexão com o paciente e apoio ao sistema público", afirma.

Tecnologia e inovação na formação

A discussão sobre qualidade também envolve a capacidade das escolas médicas de acompanhar as mudanças na área. A Medicina passa por mudanças constantes, com novos equipamentos, técnicas, medicamentos, ferramentas digitais e conhecimentos incorporados à prática profissional. Para João Gonçalves, acompanhar esse processo exige investimento permanente em estrutura e tecnologia.

A velocidade de atualização é um dos pontos destacados também por José Rocha. Segundo ele, a experiência das instituições privadas durante a pandemia mostrou a capacidade de adaptação diante de uma mudança inesperada. A mesma dinâmica, afirma, pode ser aplicada à incorporação de novos equipamentos e recursos de aprendizagem. Na formação médica, tecnologias de simulação, ambientes de aprendizagem prática e ferramentas digitais podem complementar o contato dos estudantes com os pacientes e os serviços de saúde.

A expansão das escolas, portanto, também traz o desafio de acompanhar a evolução tecnológica da profissão e garantir que os estudantes tenham acesso aos recursos necessários para sua formação.