ECONOMIA Economia
Economistas analisam como ajuste fiscal impacta os MEIs
Freio na economia pode causar perdas para microempreendedores e pequenos negócios
20/10/2026 10h24
Por: Marcos Lima Fonte: Agência Dino

Com 17,56 milhões de registros ativos, os Microempreendedores Individuais (MEIs) estão em forte expansão no Brasil. Em 2025, o país bateu recorde com abertura de 3,8 milhões de novos cadastros, uma alta de 22,1% em relação ao ano anterior, aponta o Panorama Econômico dos Pequenos Negócios do Sebrae. Esse contingente injeta mais de R$ 70 bilhões na economia por ano.

Enquanto a contenção de gastos públicos é uma medida defendida por analistas do mercado e lideranças do setor privado para garantir a sustentabilidade fiscal, outra ala de economistas alerta para os riscos de restrições significativas causarem retração na atividade econômica. A avaliação é que uma desidratação no poder de compra da população reduz a demanda no mercado interno, e quem mais vai sentir no bolso são os microempreendedores e pequenos negócios.

"Quando se fala em um ajuste fiscal drástico, isso significa puxar o freio de mão da economia brasileira. E quem perde renda primeiro são aqueles que dependem de uma economia que cresce e gera oportunidades", afirma a economista e professora da USP Laura Carvalho.

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De acordo com o Panorama Econômico dos Pequenos Negócios do Sebrae, a maior parte dos MEIs está no setor de serviços (7,6 milhões). Logo depois, vêm o comércio (3,1 milhões) e a indústria (1,3 milhão). Na divisão por região, o Sudeste é o que soma o maior número de microempreendedores, com 6,8 milhões no total. O estado de São Paulo concentra a maioria dos trabalhadores dessa categoria (3,7 milhões), seguido de Minas Gerais (1,5 milhão) e Rio de Janeiro (1,3 milhão).

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A economista explica que, num cenário de austeridade fiscal, quando o salário mínimo deixa de ter reajuste acima da inflação, trabalhadores de carteira assinada, aposentados e mesmo beneficiários de programas sociais vão enfrentar uma perda gradual do poder de compra. "As primeiras despesas a serem cortadas do orçamento familiar são as com cabeleireiro, manicure, pedidos de entrega de comida em casa, viagens por aplicativo, entre outros serviços", enfatiza Carvalho.

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Um estudo dos economistas Clara Brenck e João Enrique Perez, do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Universidade de São Paulo (FEA/USP), aponta que a renda de MEIs e trabalhadores informais é muito mais sensível às oscilações da economia do que a de quem tem carteira assinada. A partir da análise de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2015 a 2025, os pesquisadores identificaram que, para cada 1% de alta no PIB, em termos reais, a renda real de trabalhadores por conta própria (com e sem CNPJ) salta mais de 2%. Já o rendimento real das demais categorias registra alta bem mais modesta, de aproximadamente 0,9%.

O levantamento também simulou o impacto, em um período de dois anos, de um corte de benefícios sociais equivalente a R$ 4,5 bilhões já no primeiro mês. No sexto mês após a medida, a renda dos autônomos (com e sem CNPJ) sofre uma queda acumulada de -0,28%, um impacto cerca de 1,7 vezes maior do que a perda registrada pelos assalariados formais (-0,17%) no mesmo período. Ao longo do tempo, a perda de rendimento não se recupera e, ao final dos 24 meses, fica em -0,35% para quem trabalha por conta própria, contra -0,21% para os contratados com carteira assinada. "Isso significa que a vulnerabilidade dos MEIs e autônomos é quase duas vezes superior em relação ao trabalhador de carteira assinada", afirma Brenck.