
ÍDOLOS PERNAMBUCANOSHomenagens a personalidades que fizeram - e fazem - história em nosso Estado, quer tenham ou não nascido aqui.
Jota Michiles: compositor é Patrimônio Vivo da cultura e do frevo pernambucano
Foto: Jan Ribeiro/Secult-PE
Falar sobre Jota Michiles, sobre quem é, o que faz e o que representa para a música brasileira, sobretudo a MPP – MÚSICA POPULAR PERNAMBUCANA é perda de tempo. Quem não conhece nunca ouvir falar de música
José Michiles da Silva, mais conhecido como Jota Michiles, nasceu em Recife, capital de Pernambuco, embora tenha escolhido Olinda para viver, em 4 de fevereiro de 1943.
Ele é o responsável por inúmeros sucessos de frevo que fazem o carnaval do Recife e de Olinda, que compõe desde os seus doze anos, bem como autor de consagradas letras de maracatu, coco, forró e famosos jingles para campanhas publicitárias e políticas.
Graduado em História pela Universidade Católica de Pernambuco, chegou a lecionar durante um ano em escolas da rede pública estadual. Fez Desenho na Escola Industrial, onde estudou desenho, pintura e modelagem. Também ensinou no Colégio Estadual Rodolfo Aureliano, em Olinda, por 10 anos. Paralelamente aos seus trabalhos como professor, fazia músicas. Finalmente, em 1991, ele decidiu se dedicar apenas à música, o que faz até hoje, sendo um dos mais importantes compositores de frevo da atualidade, contabilizando, ao longo de sua carreira, mais de 50 sucessos gravados.
Apesar de nunca haver estudado música, aprendeu a gostar de frevo ainda menino. Ouvia Capiba, José Menezes, Luís Bandeira e outros compositores famosos. No entanto, ele considera que a música sempre esteve no seu sangue, já que é sobrinho de Orlando Dias, cantor bastante conhecido nos anos 50.
MUSICOGRAFIA - A primeira música criada por Michiles foi um bolero "Você Me Maltratou", interpretada por Vitor Bacelar em 1962.
Tendo um tio como Orlando Dias, desde cedo cresceu cercado de música entre os familiares. O primeiro sinal de que ele se tornaria um grande sucesso aconteceu quando ainda tinha 16 anos. A versão para a música dos Beatles, "I Wanna Hold Your Hand" se chamou "Não Quero que tu Chores" e foi gravada, com grande sucesso, pelos Golden Boys.
Em 1966, aos 23 anos, recebeu o prêmio no Festival Uma Canção para o Recife, com uma marcha-de-bloco, chamada "Recife Manhã de Sol", interpretada por Marcos Aguiar. O álbum, um dos mais vendidos daquele ano, foi lançado pela Rozenblit, O festival foi o grande salto na carreira do compositor, que concorreu com personalidades como Capiba, Ariano Suassuna e Nelson Ferreira. A partir daí, o artista começou a participar dos concursos de música promovidos pela Rádio Clube de Pernambuco, TV Rádio Clube de Pernambuco e TV Jornal do Commercio.
Foi em 1986, com a música "Bom Demais", gravada por Alceu Valença, que seu nome virou sinônimo de frevo. No ano seguinte, também interpretada por Alceu, a canção "Me Segura Senão Eu Caio" explodiu nas ladeiras de Olinda e foi imortalizada como hit obrigatório nas festas de Momo.
O ano seguinte foi a vez de o frevo "Fazendo Fumaça" ecoar nos quatro cantos do carnaval pernambucano, que gravou com Fafá de Belém. Em 1993 ele compôs o sucesso "Diabo Louro", gravado por Almir Rouche no mesmo ano. Dois anos mais tarde, o sucesso explodiu e ganhou o status de música do Carnaval, na voz de Alceu Valença. Apesar de suas letras serem mais conhecidas na voz de Alceu Valença, Michiles emprestou suas canções a artistas como Fafá de Belém ("Fazendo Fumaça", "Forró Fogoso" e "Negue"), André Rio ("Queimando a Massa" e "Babado da Morena"), Claudionor Germano ("Queimando a Massa"), Banda Pinguim ("Queimando a Massa"), Versão Brasileira ("Perna Pra Que Te Quero"), Nádia Maia ("Espelho Doido"), Novinho da Paraíba ("Forró Fogoso") e Coral do Bloco da Saudade ("Sonhos de Pierrô", "Obrigado Criança" e "Bloco da Saudade"), entre outros.
Outro grande sucesso foi a música "Roda e Avisa", homenagem a Chacrinha, música que compôs junto com Edson Rodrigues.
Apesar de consagrado como frevista de carteirinha, também possui uma veia em diversos outros ritmos, principalmente o Forró. "Forró Fogoso" foi gravado por Novinho da Paraíba e Fafá de Belém; "Estrela Gonzaga" foi interpretada por Dominguinhos, que, junto a Marrom (Nação Brasileira), gravou o forró "Acorda Povo".
Compôs o maracatu "Recife Nagô", gravado por Amelinha e Asas da América, em 1998.
O Coco "Swing Naná" foi criado em homenagem a Naná Vasconcelos. A música foi gravada pela primeira vez por Almir Rouche (Banda Pinguim), na década de 90, em seguida pela banda baiana Kissukila em 2002 e por Aurinha do Coco em 2003.
Na composição de jingles para campanhas publicitárias e políticas, destacou-se como autor do tema do São João da cidade do Recife, cantado na voz de Dominguinhos, de campanhas para pão Plus Vita, Pitú, Ron Montila, Café Royal e a de Jarbas Vasconcelos para o governo de Pernambuco, e de Cadoca para a prefeitura do Recife.
Jota continuou sua carreira musical, tornando-se um dos grandes nomes sobretudo do frevo pernambucano, a ponto de receber um elogio que o exalta e mostra sua importância para a nossa música, justamente de um dos maiores ídolos pernambucanos, Alceu Valença.
“Jota Michiles é um compositor inacreditável, que trabalha com as nossas raízes e matrizes. Ele é frevo de bloco, frevo de rua, é ciranda, ele faz todos os gêneros da nossa cultura pernambucana”, exalta Alceu.
Foi com a ajuda do cantor e amigo que a carreira de Michiles ganhou um grande impulso.
“O difícil é sempre fazer o fácil, criar aquela música que as pessoas escutam pela primeira vez e saem por aí cantando”. Foi com essa filosofia estético-criativa que José Michiles da Silva, o Jota Michiles, construiu um repertório musical que está gravado no imaginário coletivo de quem ama o carnaval. As obras desse recifense, nascido em 4 de fevereiro de 1943, embalam a trilha sonora da alegria de muitas gerações.
“É muito gratificante a gente ver uma composição musical surgida na nossa intimidade, nossa solidão, de repente se popularizar na boca do povo, nas ruas, becos, ladeiras, nos bares, nas orquestras e nos clubes. É um prenúncio de muitos e muitos carnavais, assim como acontece com ‘Recife manhã de Sol’, ‘Recife nagô’, ‘Bom demais’, ‘Me segura senão eu caio’, ‘Diabo louro’ (para sua esposa), ‘Vampira’, ‘Espelho doido’, e outros mais”, destaca Michiles.
Lançado em 1986, na voz do filho de São Bento do Una, o frevo “Bom demais” estourou e passou a fazer parte do repertório de centenas de orquestras, bandas e artistas solo. “Eu tenho mais que tá nessa/ Fazendo mesura na ponta do pé/ Quando o frevo começa/ Ninguém me segura/ Vem ver como é”, diz trecho da canção.
Depois desse belo impulso, ninguém mais segurou Jota Michiles. No ano seguinte, o frevo que faz referência a um dos pontos culturais e de encontros de Olinda, também gravado por Alceu, novamente colocou a criação do compositor na boca do povo e na ponta do pé de passistas profissionais ou eventuais.
“Nos quatro cantos cheguei e todo mundo chegou/ Descendo ladeira, fazendo poeira, atiçando calor/ Nos quatro cantos cheguei e todo mundo chegou/ Descendo ladeira, fazendo poeira, atiçando o calor”
Com “Me segura senão eu caio”, Michiles transformou em verso, melodia, harmonia e ritmo o roteiro afetivo-carnavalesco de quem chega na cidade do Homem da Meia-Noite e de outros bonecos gigantes, para curtir os dias de folia. A sequência de sucessos prosseguiu com obras gravadas pelo sempre parceiro Alceu Valença e por outros grandes nomes do cenário local e nacional.
Além das já citadas pelo próprio Jota, a lista inclui “Fazendo Fumaça”, “Forró Fogoso” e “Negue” (com Fafá de Belém), “Queimando a Massa” (gravada por André Rio e Claudionor Germano), “Perna pra que te quero” (Versão Brasileira), “Forró Fogoso” (Novinho da Paraíba), “Sonhos de Pierrô” e “Obrigado criança”, que marcaram e continuam a marcar as evoluções do Bloco da Saudade. O sucesso “Diabo louro” foi inicialmente registrado por Almir Rouche e, em seguida, por Alceu.
“Roda e avisa”, uma homenagem a Chacrinha, o Velho Guerreiro, o dono das tardes de sábado da televisão brasileira, foi fruto de uma parceria com o maestro Edson Rodrigues - outro grande baluarte do carnaval e da cultura pernambucana.
“ASAS DO FREVO – O CARNAVAL DE J. MICHILES” - Lançado em 2007, depois de dois anos de trabalho, o CD “Asas do frevo – o Carnaval de J. Michiles” é uma importante síntese do poder criativo de Michiles e do prestígio do artista diante de grandes nomes da música brasileira.
O disco, cujo título faz referência ao projeto “Asas da América”, do compositor caruaruense Carlos Fernando, reúne uma verdadeira constelação de cantores e cantoras. Entre os destaques, Silvério Pessoa, Amelinha, Daniela Mercury, Elba Ramalho, Antonio Nóbrega, Spok Frevo Orquestra & Dominguinhos, Lula Queiroga, Chico Cesar & Naná Vasconcelos, além dos aqui já citados, André Rio, Almir Rouche, Fafá de Belém, Claudionor Germano e, claro, Alceu Valença.
GRANDES MOMENTOS NA CARREIRA - Homenageado do Carnaval do Recife 2018, junto com a cantora Nena Queiroga, Jota Michiles começou a alimentar a paixão pela festa ainda na infância. Naquele tempo, ele assistia encantado às passagens dos blocos e troças em bairros recifenses onde morou, como Campo Grande, Arruda e Água Fria.
A estreia como compositor, entretanto, não foi na seara carnavalesca. O acontecimento marcou-lhe positivamente para sempre. “Nesses mais de 50 anos de atividade musical, tive meu primeiro momento de emoção ao gravar uma canção intitulada ‘Não quero que chores’, com o grupo vocal The Golden Boys, em julho de 1964”, rememora.
A música, classificada por ele mesmo como uma “pré-Jovem Guarda”, era o lado B de um compacto simples da gravadora Odeon. O lado A trazia a versão de “I wanna hold your hand”, dos Beatles. Colunas portáteis
De acordo com Jota Michiles, sua “segunda grande emoção” aconteceu dois anos depois, quando conquistou o primeiro lugar no concurso “Uma canção para o Recife”, instituído pela Prefeitura da Cidade, na gestão de Augusto Lucena, e pela Rádio Jornal do Commercio.
A marcha “Recife, manhã de Sol” foi a vencedora, concorrendo com os mais consagrados compositores daquele momento, a exemplo de Capiba, Nelson Ferreira, Luiz Bandeira, Clóvis Pereira e Zé Menezes, e entre mais de 200 músicas inscritas.
“Recife, manhã de Sol” foi lançada em compacto pela lendária gravadora e fábrica de discos Rozenblit. Posteriormente ganhou diversas versões, incluindo a do cantor Orlando Dias – tio de Michiles – e Maria Bethânia, que a gravou para o disco “Asas do frevo”.
CONCURSO NORDESTINO DE FREVO - Em 2021, primeiro ano em que o carnaval não aconteceu devido aos infortúnios causados pela pandemia da covid-19, Jota Michiles ganhou mais um prêmio. Composta em parceria com o filho César Michiles, a música “Caceteiro” conquistou o título na categoria “Frevo derua”, no Concurso Nordestino do Frevo – promovido pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).
BIOGRAFIA E MAIOR ALEGRIA - Em fevereiro de 2013, a Cepe Editora lançou a biografia “Jota Michiles – Recife, Manhã de Sol”, escrita pelo jornalista Carlos Eduardo Amaral. A obra apresenta a história do filho de seu Romeu e dona Maria José, que chegou a trabalhar como professor de desenho industrial e história até ser reconhecido como um dos mais importantes compositores da música pernambucana.
Indagado sobre qual teria sido a maior alegria de todas, em sua carreira, ele conta: “Foi mesmo no Carnaval de 1986, quando meu nome passou a ser destaque na cena carnavalesca, com o estrondoso sucesso do frevo ‘Bom demais’, na interpretação de Alceu Valença, no disco ‘Estação da Luz’, da RCA. Na quarta-feira de cinzas, uma manhã chuvosa, o Diario de Pernambuco estampou na primeira página: “Carnaval foi bom demais!”, festeja Jota Michiles, Patrimônio Vivo de Pernambuco.
Publicado originalmente no Cultura PE.
RECIFE - PE Recife é a Capital de Pernambuco, Terra do Frevo e do Maracatu; Porto e Porta de entradaa no Nordeste, Sensação
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