
João Batista Silva de Siqueira, conhecido como Seu João, é um simpático colaborador do Colégio Motivo de Caruaru, que exerce a atividade de porteiro-recepcionista, mas poderia ser também chamado de o “Rei da Doçura e da Gentileza”, atitudes que ele oferta a todos, alunos, funcionários, pais dos alunos ou, apenas, visitantes. Enfim, uma pessoa que transmite calma, paz e tranquilidade, apenas com a sua presença.
Nascido em Palmares, município da Mata Sul de Pernambuco, a aproximadamente 120 km de Recife, a capital, em 1967, no dia 23 de maio, mudando-se para Caruaru quando já tinha 22 anos.
Começou a trabalhar no Colégio Motivo em 2016. Antes, trabalhou em outros colégios, e em diversas empresas e instituições, entre os quais no Colégio Sagrado Coração, na Coca-Cola, na Transportadora Cometa e no Hospital Mestre Vitalino, onde atuou um ano, como vigilante.
Seu João chama a atenção de quem o conhece por um detalhe curioso: a facilidade que ele tem de decorar os nomes das pessoas. Por esse dom, nós lhe demos o cognome de “O Decorador de Nomes”.
No Colégio Motivo, que tem em torno de 700 pessoas transitando diariamente pela portaria, seu ponto de trabalho na instituição, entre alunos e funcionários, isso começou a chamar mais a sua atenção, mas, ele começou a notar essa facilidade no Sagrado Coração, que tinha um pouco menos, mas o mesmo acontecia na Coca-Cola, com quase 1.000 colaboradores.
Poder-se-ia pensar que ele anota os nomes dos alunos e de todos que passam pela portaria e ficar treinando, por algum período, até decorar os nomes. Isso, porém, não acontece. O fenômeno é instantâneo: a pessoa passa por ele a primeira vez, ele pergunta o nome e não precisa perguntar mais uma vez: o nome já está fixado em sua memória.
Como se dá normalmente, alguns pais que querem – ou precisam – transferir seus filhos de escola, por questões de mudança de local de cidade, ou porque não estão satisfeitos com a instituição onde seus filhos estudam, geralmente começam a fazer pesquisa de escolas já nos meados do ano. Quando eles chegam ao colégio (os pais com os filhos), seu João pergunta o nome do aluno, se realmente ele vai vir estudar ali, enfim, engata um pequeno papo com a criança (ou o adolescente), que diz se chamar Henrique.
Os pais vão embora, discutem em família e resolvem matricular seus filhos no Motivo, muitas vezes sem o seu João tomar conhecimento. No primeiro dia de aula, o aluno está chegando e seu João o recebe e o cumprimenta com a maneira que lhe é peculiar: “Bom dia, Henrique”. Quando os pais se surpreendem e perguntam para ele se ele já conhece seu filho, e de onde, seu João responde: “Conheço, sim. Vocês não vieram aqui no ano passado, em julho, conhecer o colégio?”.
Um caso inesquecível
Seu João tambem poderia ser chamado de O Anjo do Motivo de Caruaru. Há coisas que só ele é capaz de fazer, e muitas vezes sem que ninguém chegue a saber.
Perguntamos se, como ele já está no colégio há mais de 10 anos, se ele tem muitas histórias para contar. Infelizmente, algumas de grande importância nós podemos relatar, mas não podemos citar quando aconteceram nem quem foram os personagens que dela participaram, além dele, o que ele também não nos falou.
Um certo dia, ele estava na portaria e, ao olhar para o pátio, viu uma adolescente sentada num dos bancos e pareceu que ela estava chorando. Ele consultou “Aquele” que tudo faz, sobre o que deveria fazer e foi até a menina, que estava realmente se esvaindo em lágrimas.
Ele se aproximou e perguntou o que estava acontecendo. A garota aumentou o choro e, soluçando muito, falou que não aguentava mais, que sua vida não valia nada, que sofria muito e não queria mais viver. Seu João pegou carinhosamente em sua mão e falou: “Minha filha, existe um Ser que é maravilhoso e que está sempre olhando por todos nós, principalmente pelas crianças e adolescentes feito você. Ele cura qualquer dor, nos dá força para enfrentar qualquer sofrimento. Este Ser é Deus. Ele nos criou e é o responsável por cuidar de nós. Fale com Ele. Você vai ver que tudo vai mudar”.
A menina se foi e seu João não a viu mais.
Alguns anos depois, um aluno estava conversando com seu João e disse que era irmão de uma ex-aluna, que gostava muito dele e sempre falava o seu nome. Quando ele falou o nome da menina, seu João lembrou de imediato dela e disse que também gostava muito dela, mas que não a vira mais nem falara com ela. O aluno perguntou se ele gostaria de falar com ele e seu João disse que sim.
O garoto fez uma ligação, falou com a irmã e passou para seu João. Ela, muito emocionada, falou pra ele que lhe devia muito, que ele salvara a sua vida, que ela estava casada, tinha acabado de dar à luz um filhinho e era muito feliz.
“Devo-lhe tudo isso, pois naquele dia eu estava decidida a pular do meu apartamento, no 10º andar. Estou aqui porque Deus lhe colocou no meu caminho”, disse ela.
“Essas coisas, e outros fatos idênticos, nos fazem acreditar o quanto é importante cuidar das pessoas, principalmente quando se tratam de crianças, de adolescentes, de jovens. E eu sou muito feliz por Deus me dar esta oportunidade”, diz, sério, seu João.
Seu João é casado e tem um casal de filhos.
Que fenômeno é este, o de decorar nomes com facilidade? (*)
Desenvolver facilidade para decorar nomes de outras pessoas resulta da combinação de atenção plena no momento da apresentação, do uso espontâneo de técnicas mnemônicas (como associar o nome a imagens mentais ou a características físicas) e do interesse genuíno na interação social, o que sinaliza ao cérebro que aquela informação é importante.
Pessoas com essa facilidade realmente param para ouvir o nome no primeiro contato, em vez de ficarem pensando no que vão responder. O cérebro humano lida com nomes próprios como rótulos abstratos e isolados. Quem lembra com facilidade cria pontes inconscientes, ligando o som do nome a um objeto, a um lugar ou a alguém conhecido. O hábito de repetir o nome em voz alta logo após ouvir (ex: "Prazer, Carlos") reforça o registro na memória de curto prazo.
A facilidade natural para lembrar nomes sem treino diário decorre de fatores como alta atenção plena no momento do cumprimento, associações mentais automáticas e inconscientes, forte memória fonética ou traços de personalidade altamente empáticos e voltados para o interesse genuíno nas relações sociais.
No começo dos anos 1990, Mark Channon trabalhava em um bar de Londres quando um amigo lhe ensinou uma técnica para lembrar nomes. Naquela época, Channon, que tentava a carreira de ator, conseguia decorar textos para o palco, mas tinha uma memória péssima para nomes.
Com a técnica de memorização, logo ele estava recordando nomes de clientes e pedidos de drinques mesmo nas noites mais movimentadas. Em poucos anos, ele desenvolveu um gameshow para a BBC chamado Monkhouse Memory Masters, onde apresentava estratégias de memorização aos participantes, que competiam em jogos de memória.
Em 1995, ele ficou em 3º lugar no Campeonato Mundial de Memória, e se tornou um dos primeiros mestres internacionais da memorização.
Sua memória pode ficar tão boa quanto a de um campeão de memorização, garantem cientistas
Hoje Channon ensina essas técnicas a trabalhadores que buscam um diferencial na carreira. Profissionais como ele afirmam que a habilidade para lembrar nomes é uma ferramenta útil que pode ajudar executivos a conquistar a confiança de empregados e a melhorar a relação com clientes. Recordar o nome de alguém mostra que você presta atenção e se importa com o que ela diz, afirma ele.
Uma das coisas mais poderosas", afirma Channon, "é você poder entrar numa sala e chamar cada um pelo nome."
*Artigo do The Guardian de 2023 (https://www.difusaobrasil.com.br/admin/index.php?pg=noticias&id=57242)