Enquanto o mundo comemora, em setembro, o dia Mundial de Limpeza das Praias, no terceiro sábado de setembro, o povo nordestino foi surpreendido neste mesmo período por uma poluição sem precedentes no litoral brasileiro. Nas primeiras levas de óleo, que atingiram as praias da Paraíba e Pernambuco, o assunto não teve a devida atenção, nem das autoridades, tampouco pela imprensa. Formadores de opinião e influenciadores digitais também não deram a devida importância. Sem contar o mais completo silêncio dos ambientalistas e das ONGs nacionais e internacionais.
O mais estranho de tudo é que, até agora, não temos nenhum fato concreto que possibilite a identificação dos responsáveis, mesmo havendo protocolos internacionais, tais como, a Convenção Internacional de Prevenção de Poluição advinda de navios, conhecida como Marpol ou International Convention for the Prevention of Pollution from Ships.
O site da Marinha do Brasil, define o propósito do MARPOL da seguinte forma: “A Convenção Internacional para a Prevenção da Poluição por Navios (MARPOL) tem por propósito o estabelecimento de regras para a completa eliminação da poluição intencional do meio ambiente por óleo e outras substâncias danosas oriundas de navios, bem como a minimização da descarga acidental daquelas substâncias, no ar e no meio ambiente marinho”.

Independentemente de ser acidental ou não, fato que ainda não sabemos, existem diversos protocolos internacionais sobre o tema. O que mais chama a atenção é a lentidão da resposta, pois estamos sofrendo com a contaminação de nossas praias há quase 60 dias e, somente na última semana, houve uma maior participação das autoridades responsáveis pela solução do problema.
A cada dia novas áreas são afetadas. Praias e oceanos contaminados por um tipo de petróleo que, segundo as autoridades brasileiras, é venezuelano.
Diante da morosidade das autoridades, em buscar uma solução definitiva, o povo nordestino, em especial o povo de Pernambuco, em função da grande quantidade de praias atingidas, resolveu, a par das consequências danosas à saúde e sem nenhum apoio governamental, colocar a mão na massa, ou melhor, neste petróleo contaminado e com uma grande concentração de hidrocarbonetos.
Esses voluntários vêm arriscando suas próprias vidas para fazer as limpezas das praias e oceanos, mesmo sem os equipamentos de segurança necessários para o manuseio destes poluentes. Possivelmente, esta talvez seja a maior ação de voluntariado já visto na história do Brasil, com o povo nordestino unido para salvar nossas praias e oceanos, mostrando às autoridades que não vão se acomodar a esse descaso com o meio ambiente.
É bem verdade que algumas prefeituras, governos estaduais, órgãos de meio ambiente e defesa civil, a Marinha e o próprio governo federal também começaram a fazer um pouco de sua obrigação. As ações passaram a serem mais coordenadas, os órgãos estaduais e municipais do meio ambiente se integraram, e as forças armadas também passaram a dar sua contribuição. A população passou a ser orientada, e os equipamentos de proteção começaram a chegar para os voluntários, mesmo em quantidade inferior ao necessário. Porém, tudo isso deveria ter acontecido no começo dos primeiros registros das manchas de óleo. Se não fosse a movimentação dos voluntários a iniciar este importante trabalho de limpeza das praias, e bem possível que as autoridades ainda estivessem discutindo para definir de quem é a responsabilidade, enquanto nossas praias agonizavam em busca de uma solução. Portanto, os grandes heróis deste luta inglória são os nossos destemidos voluntários que, com coragem, força de vontade e o desejo de manter preservado o meio ambiente, estão fazendo toda diferença. Somente no estado de Pernambuco já foi recolhido até o momento 1.358 toneladas de óleo, o que coloca o estado, como o mais atingido por todo óleo encontrado no nordeste, representando mais de 50% do total contabilizado em todas as praias região.

Esperamos que os responsáveis sejam identificados, e que sejam tomadas medidas eficazes para amenizar as consequências, pois as praias e os oceanos estão pedindo socorro. Além do dano ambiental, ainda existe o impacto econômico para toda a região, para os pescadores, os vendedores ambulantes, os comerciantes, os hoteleiros e toda uma cadeia produtiva que são os que mais sofrem os impactos que perdurarão durante um bom tempo, mesmo após a limpeza de todas as praias.
Ricardo Almeida, é cofundador do Blog Referência Brasil, Pedagogo pela Universidade Federal de Pernambuco, pós-graduado em Marketing pela FGV e especialista em Saúde Suplementar.