
Marcos Lima Mochila (*)
Os futuros brasileiros, que nascem aos montes por todos os quatro cantos do solo nacional, em maior número nas regiões mais carentes, decerto não têm ciência ainda do que acontece do lado de cá. Se soubessem, provavelmente continuariam do lado de lá, rodeado do calor e da segurança do útero materno, sem se arriscarem vindo ao encontro de tantas incertezas.
A verdade é que o país que nossos filhos, netos, bisnetos e tatará por aí, vão herdar, é um país de antagonismos, que gera medo, insegurança e muita vergonha à maioria das famílias que aqui nasceram, vivem e sofrem.

Hoje não seria possível criar slogans como o que foi criado em 1973, plagiando um slogan dos EUA dos anos 50, criado pelo radialista Walter Winchell (1897-1972) “América: ame-a ou deixe-a!”. Pressionado pela crise do petróleo, o governo do presidente Médici (1905-1985) decidiu investir em propaganda e foi criado o paralelo nacional “Brasil: ame-o ou deixe-o!”.
Com certeza, a maioria dos brasileiros o trocariam “Brasil: amo mas vou deixá-lo”.
É que o povo já está cansado ao extremo, a ponto de perder aquela que é a última que morre, a Esperança, em ver essa “Sopa de Aruá”, como cantou meu amigo, o poeta

Gustavo Tiné, transformar-se num caldo fino e tragável.
Vivemos num país onde as vítimas são condenadas à morte, à vergonha, à imobilidade física e outras mazelas mais e os infratores ficam em liberdade, gozando a vida e gozando com a cara das vítimas...
... onde um grupo de pessoas fecha o trânsito, queima pneus, lixo e outras coisas mais, interrompendo o livre trânsito das pessoas que querem seguir para o trabalho, para escola ou, simplesmente, para um passeio. E, o que é pior, muitas vezes causando a morte de um doente que agoniza numa ambulância que não tem como transitar, porque as ruas estão bloqueadas.
... onde, mesmo um bandido preso em flagrante, basta que ele pague uma fiança e estará outra vez na rua, para responder em liberdade pelo crime que cometeu. Mesmo que esse crime tenha deixado o saldo de um ou mais mortos, de uma ou mais famílias desamparadas.

Um país em que, enquanto as famílias andam temerosas pelas ruas ou vivem em apartamentos rodeados de grades por todos os lados, interna e externamente, bandidos circulam livremente pelas ruas, em suas comunidades, muitas vezes portando armas à vista de quem tem olhos e quer ver.
Vivemos num país onde um presidente que se dispôs a salvá-lo, combatendo a corrupção, promovendo a recuperação da autoestima e do orgulho de ser brasileiro, é diuturnamente atacado por todos os lados - além de ter sido esfaqueado ainda durante a campanha -, sendo incitado a perder o controle que, para o povo, é a constatação de que ele é realmente humano. Mas, para os adversários, é a prova de que se trata de um ser descontrolado.
Nós, que nascemos e crescemos lutando para mudar todos esses descaminhos de nossa Nação, já estamos velhos, cansados e com poucas forças para continuar “malhando em ferro frio”, conforme conhecida expressão popular.
E eles, muitos dos quais que ainda estão por vir? Terão força suficiente, como nós tivemos, para aguentar todas essas intempéries e saírem ilesos da tormenta?

Só o tempo, o senhor da razão, poderá nos dar a resposta. Só torço para que, doravante, se espalhem benefícios, como cantou Caetano em sua “Oração ao tempo”. Ou continuará tudo como cantou Chico Buarque, em "À Flor da Pele: O que não tem medida, nem nunca terá / O que não tem remédio, nem nunca terá / O que não tem receita”?
O que será, afinal, do país que deixaremos como herança?
(*) Marcos Lima Mochila é jornalista e coadministrador do Portal Referência Brasil